
A Sociedade Esportiva Palmeiras venceu o Vasco da Gama por 1 a 0, neste domingo ca´tolico (1º), no Nubank Parque, em São Paulo, e abriu vantagem na semifinal da Copa do Brasil de 2026. Entretanto, o resultado ficou marcado por duas decisões controversas do árbitro Anderson Daronco: um pênalti não assinalado para os cariocas e a expulsão do zagueiro Saldívia, que deixou os visitantes em inferioridade numérica.
Não foi a primeira vez que uma vitória palmeirense em confronto decisivo terminou acompanhada de reclamações sobre a arbitragem. O episódio reacendeu discussões sobre decisões que beneficiaram a equipe paulista em temporadas recentes, algumas delas reconhecidas como equivocadas pelos próprios órgãos responsáveis pelo futebol brasileiro.
Palmeiras marca, mas Vasco reage
A Palmeiras começou melhor e conseguiu abrir o placar aos 24 minutos do primeiro tempo. Após jogada construída por Arias e Marlon Freitas, Maurício recebeu em condições de finalizar e marcou o único gol da partida.
A equipe paulista criou outras oportunidades, mas não conseguiu ampliar. O Vasco, por sua vez, cresceu no confronto e passou a encontrar espaços, especialmente na segunda etapa, quando Cuiabano desperdiçou uma oportunidade diante do goleiro Carlos Miguel.
O equilíbrio da partida, porém, acabou ofuscado por decisões que provocaram indignação entre jogadores, dirigentes e torcedores vascaínos.
Pênalti ignorado por Daronco provoca revolta
Aos quatro minutos do segundo tempo, o zagueiro Barboza interceptou com o braço uma bola disputada com Lescano dentro da área palmeirense. Os jogadores do Vasco pediram pênalti imediatamente, mas Anderson Daronco mandou o jogo prosseguir.
O VAR, comandado por Rodrigo D'Alonso Ferreira, também não recomendou a revisão no monitor.
A decisão recebeu críticas de especialistas em arbitragem. PC Oliveira, comentarista do Grupo Globo, considerou que houve infração, pois o braço do defensor ampliou o espaço corporal e interrompeu a trajetória da bola. Em consulta realizada pelo UOL, ex-árbitros também entenderam que a penalidade deveria ter sido marcada.
Expulsão de Saldívia amplia questionamentos
Aos 32 minutos do segundo tempo, o Vasco sofreu outro revés. O zagueiro Saldívia recebeu o segundo cartão amarelo após uma falta em Vitor Roque e acabou expulso.
A advertência também foi questionada por ex-árbitros, que consideraram a punição excessiva diante das circunstâncias da jogada. Houve ainda avaliação de que uma infração anterior do atacante palmeirense deveria ter sido considerada.
Com um jogador a mais, a Palmeiras passou a ter condições ainda mais favoráveis para administrar a vantagem. Mesmo assim, não conseguiu marcar novamente e encerrou o confronto com uma vitória mínima.
Após a partida, o diretor de futebol do Vasco, Admar Lopes, classificou a atuação da arbitragem como vergonhosa e cobrou maior responsabilidade da CBF na escolha dos profissionais para partidas decisivas.
Abel Ferreira: reclamações assíduas em lances polêmicos, silêncio diante de favorecimentos claros
A postura de Abel Ferreira também chamou a atenção. Conhecido pelas críticas frequentes à arbitragem brasileira, o treinador português evitou avaliar o possível pênalti e a expulsão que favoreceram sua equipe.
Questionado sobre as reclamações vascaínas, Abel preferiu mencionar um lance envolvendo Lucas Evangelista e afirmou que não pretendia mais discutir decisões dos árbitros. Posteriormente, justificou sua postura citando punições recebidas no Superior Tribunal de Justiça Desportiva e o desgaste provocado por seus próprios protestos.
A explicação, entretanto, não elimina uma contradição que merece ser discutida.
Em fevereiro deste ano, após uma vitória sobre o Internacional, Abel voltou a criticar a arbitragem brasileira e chegou a sugerir que existia uma resistência em assinalar pênaltis para a Palmeiras. Agora, diante de uma penalidade reclamada pelo adversário, optou por não avaliar o mérito da decisão.
É legítimo que um treinador procure evitar novas punições e adote uma postura mais moderada. O que merece questionamento é a diferença de tratamento entre os episódios em que sua equipe se considera prejudicada e aqueles nos quais as decisões contestadas lhe são favoráveis.
A credibilidade de uma crítica à arbitragem depende também da disposição para reconhecer os erros quando eles beneficiam o próprio clube.
Erros anteriores já beneficiaram a Palmeiras
A discussão não começou no confronto com o Vasco. Em 2025, pelo Campeonato Brasileiro, a Palmeiras venceu o Sport por 2 a 1, na Ilha do Retiro, graças a um pênalti convertido por Piquerez nos minutos finais.
Posteriormente, o Comitê Consultivo de Especialistas Internacionais da CBF concluiu, por unanimidade, que a penalidade havia sido marcada incorretamente. A avaliação apontou que o defensor do Sport tocou a bola e não cometeu infração que justificasse a cobrança.
O episódio teve consequência direta no placar e levou ao afastamento dos profissionais responsáveis pela arbitragem de campo e pelo VAR.
Outra controvérsia aconteceu na semifinal do Campeonato Paulista de 2025, quando a Palmeiras derrotou o São Paulo por 1 a 0, com gol de pênalti de Raphael Veiga. A penalidade assinalada sobre Vitor Roque provocou protestos da diretoria são-paulina, que contestou a interpretação da arbitragem.
Naquele caso, diferentemente do confronto com o Sport, a discussão permaneceu no campo da interpretação do lance.
Clássico de 2025 terminou com árbitros punidos
O episódio mais expressivo aconteceu em outubro de 2025, quando a Palmeiras derrotou o São Paulo por 3 a 2, de virada, no Morumbis, pelo Campeonato Brasileiro.
Com o São Paulo vencendo por 2 a 0, o árbitro Ramon Abatti Abel deixou de marcar um pênalti após Allan derrubar Gonzalo Tapia dentro da área. A arbitragem também foi questionada por não expulsar Andreas Pereira e Gustavo Gómez em lances distintos.
A gravidade das decisões ultrapassou as reclamações dos torcedores. Em novembro daquele ano, o STJD puniu o árbitro de campo e o responsável pelo VAR com 40 dias de suspensão, reconhecendo erros que interferiram no confronto.
A decisão da Justiça Desportiva representou um reconhecimento institucional de falhas relevantes em uma partida vencida pela Palmeiras.
Esses episódios não demonstram, por si, a existência de favorecimento deliberado ou de uma atuação coordenada para beneficiar o clube. Entretanto, são exemplos documentados de decisões equivocadas ou fortemente contestadas que tiveram repercussão esportiva importante.
O problema não é apenas quem vence, mas como a arbitragem interfere
A Palmeiras construiu uma trajetória vitoriosa nas últimas temporadas e possui méritos esportivos que não podem ser apagados pelas decisões dos árbitros. Entretanto, reconhecer esses méritos não significa ignorar os erros que eventualmente lhe favoreceram.
Da mesma forma, a existência de decisões contrárias à equipe paulista não elimina os episódios em que seus adversários foram prejudicados.
O problema central é a falta de uniformidade na aplicação das regras, especialmente em confrontos eliminatórios e partidas que podem influenciar títulos, classificações e premiações milionárias.
Quando a arbitragem deixa de assinalar uma penalidade relevante, aplica uma expulsão questionável ou precisa ser posteriormente punida por erros reconhecidos, a credibilidade da competição fica comprometida.
Vasco terá de buscar reação em São Januário
Com a vitória por 1 a 0, a Palmeiras poderá empatar no jogo de volta, marcado para domingo (8), às 17h, em São Januário, para garantir uma vaga na final da Copa do Brasil.
O Vasco precisará vencer por dois gols de diferença para avançar diretamente. Uma vitória carioca por um gol levará a decisão para os pênaltis.
A equipe paulista saiu de São Paulo com a vantagem no placar, mas o confronto também deixou uma discussão que não pode ser encerrada pelo resultado.
Enquanto decisões semelhantes continuarem recebendo interpretações diferentes, cada novo episódio alimentará a desconfiança sobre a igualdade de condições nas competições nacionais.
Mín. 19° Máx. 35°