
As urnas de 2026 deixaram uma mensagem difícil de ignorar: a polarização se aprofundou e o espaço para quem evita se posicionar ficou menor. Na Câmara dos Deputados, o PL elegeu 121 parlamentares, seguido pela Federação Brasil de Esperança (PT-PCdoB-PV) que conquistou 88. No Senado, o PL também será a maior bancada, com 28 dos 81 senadores a partir de 2027.
Mas talvez nenhuma legenda explique tão bem as transformações da política brasileira quanto o próprio PL. Fundado em 1985 por Álvaro Valle, nasceu liberal, integrou o Centrão durante a Constituinte, lançou Guilherme Afif Domingos à Presidência em 1989, apoiou Fernando Henrique Cardoso em 1994 e Ciro Gomes em 1998, governou com Lula de 2003 a 2010. Antes de se tornar a casa do bolsonarismo, portanto, já havia aprendido a arte da adaptação.
Este último é um capítulo que hoje parece esquecido: o PL foi fundamental para a primeira eleição de Lula. Em 2002, o empresário José Alencar, então senador pelo partido, tornou-se vice do petista. A união entre PT e PL simbolizava a aproximação entre trabalho e capital e ajudava a reduzir resistências empresariais à candidatura de Lula. A parceria chegou ao governo e atravessou os dois mandatos que terminaram com Lula registrando índices históricos de aprovação.
A legenda — transformada em PR em 2006 e novamente denominada PL em 2019 — continuou orbitando o poder. Esteve com Lula, integrou inicialmente a base de Dilma Rousseff, teve períodos de afastamento e reaproximação e, depois, compôs a sustentação parlamentar de Michel Temer. Em 2016, o PR aparecia formalmente entre os partidos aliados do novo governo golpista.
Então veio a maior metamorfose. Jair Bolsonaro ingressou no PL em 2021 e transformou a legenda no principal endereço eleitoral do bolsonarismo. Em 2022, o partido saltou para 99 deputados federais e tornou-se a maior bancada da Câmara. Quatro anos depois, mesmo fora do Palácio do Planalto, ampliou novamente sua força: são agora 121 deputados federais e 28 senadores, a maior representação partidária nas duas Casas.
Mato Grosso do Sul talvez seja a síntese perfeita desse pragmatismo (capacidade de se modificar para permanecer no poder). O PL conseguiu colocar sob o mesmo teto o ex-governador Reinaldo Azambuja, egresso do PSDB, e Capitão Contar, ex-PRTB e adversário do grupo de Azambuja na eleição de 2022. Os dois agora foram eleitos juntos para o Senado, com 903.554 e 856.045 votos, respectivamente. Ao mesmo tempo, o partido integrou a coligação que reelegeu Eduardo Riedel (PP), também oriundo do PSDB.
A amplitude aparece também nas bancadas. Cabem no mesmo PL sul-mato-grossense nomes fortemente identificados com o bolsonarismo, como Marcos Pollon; lideranças históricas ligadas ao agronegócio, como o pecuarista Zé Teixeira, deputado estadual mais votado do Estado; e parlamentares de atuação mais municipalista e temática, como Márcio Fernandes. Em MS, o partido elegeu três dos oito deputados federais e impressionantes nove dos 24 estaduais.
O PL mudou de nome, de aliados e de posição no espectro político. Foi parceiro de Lula, base de diferentes governos e, depois, tornou-se a principal máquina eleitoral do bolsonarismo. Ideologias mudaram, lideranças chegaram e partiram, mas uma característica atravessou boa parte dessa história: a capacidade de reconhecer para onde o poder se desloca e se reorganizar ao redor dele.
Em linguagem menos acadêmica, é a velha máxima política: o PL é um extraordinário metamorfo. Troca a pele quando necessário — mas raramente larga o osso.
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