Conheça o ditador Stroessner, homenageado por Bolsonaro

Por Giovana Calvana da Carta Capital*

Mais de 18 mil pessoas foram torturadas e mais de 400 foram executadas ou desapareceram no stroessnismo

Reverenciado por Jair Bolsonaro na posse do novo diretor-geral da Usina Itaipu-Binacional, em Foz do Iguaçu (PR) nesta terça-feira 26, o general paraguaio Alfredo Stroessner entra no rol dos repressores publicamente citados – e admirados – pelo presidente brasileiro. Bolsonaro o definiu como “um homem de visão, um estatista” pela atuação do ditador na construção da Usina. Foi no governo de Stroessner que as relações entre ambos países se estreitaram – devido, em grande parte, à existência de governos autoritários de militares dos dois lados.

Alfredo Stroessner entrou no poder depois de ajudar a derrubar Federico Chavez, em 1954, por meio de um Golpe de Estado. Militar da ala mais conservadora do Partido Colorado, assumiu a Presidência depois de vencer eleições nas quais ele era o único candidato, em agosto do mesmo ano

Para se manter no poder por quase 35 anos, Stroessner declarou, em 1958, um estado de sítio permanente no país, o que lhe concedeu amplos poderes e aparelhou a repressão do Estado – o habeas corpus, por exemplo, não era garantido pela Justiça. Tais ações facilitaram a sucessão de perseguições, prisões, torturas e mortes que ocorreram no período em que o paraguaio chefiou o poder.

Os números apontam a ditadura paraguaia como uma das mais sanguinárias da América Latina: segundo o documento oficial da Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai, mais de 18 mil pessoas foram torturadas e mais de 400 foram executadas ou desapareceram no período do stroessnismo.

Stroessner foi também um dos entusiastas da Operação Condor, um programa das ditaduras militares da América do Sul para aproximar líderes e coordenar a repressão aos opositores dos regimes autoritários. Em sua política internacional, concedeu exílio político para membros do Partido Nazista, como o médico de Auschwitz Josef Mengele, um dos responsáveis pelas políticas das câmaras de gás no maior campo de concentração do nazismo. Ele nunca chegou a ser julgado por seus crimes devido ao refúgio encontrado na América Latina.

Em 2017, o documentário ” Calle de Silencio” denunciou que o ditador era, também, um pedófilo. Vítimas dos abusos relataram, depois de 30 anos da derrubada do regime, como eram retiradas do interior do país para servirem a Stroessner.

As concentrações de riqueza e de terra, o baixo desenvolvimento da indústria e a exclusão de grande parcela da população às atividades mais produtivas impediram que o Paraguai se desenvolvesse além do setor agrícola, e que deixasse de depender economicamente do Brasil e da Argentina – países com os quais Stroessner fez parcerias em seu governo, como a exportação de produtos a partir do Tratado do Rio da Prata e a própria construção da Usina de Itaipu, concluída em 1985.

Depois de ser eleito oito vezes como presidente, Stroessner foi derrubado por outro golpe militar, em 1989, articulado por seu parceiro político Andrés Rodriguez. Logo depois, o general obteve exílio político no Brasil, onde morreu em 2006, aos 96 anos.

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